domingo, 23 de setembro de 2012

Viriato:O Herói Lusitano


Se a alma que sente e faz conhece,
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu. 
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste,
Assim se Portugal formou.

Assim era Viriato nas palavras do grande poeta português Fernando Pessoa, no seu livro a Mensagem. Herói lusitano do imaginário português, Viriato tornou-se uma personagem épica pela sua heróica resistência ao domínio e ao Império Romano. Muito se tem escrito sobre este homem que viveu na Lusitânia, mas muito pouco se sabe ao certo. O seu nome, Viriato deriva do ibérico viria, que significa pulseira, uma abreviatura da palavra celta viriola (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade)Viriato é originário da Lusitânia Ocidental, que confina com o Oceano, e mais precisamente da montanha. A sua pátria parece ter sido a Serra da Estrela (Mons Herminius), que domina a região situada entre o Tejo e o Douro (Adolf Schulten, arqueólogo, historiador e filólogo alemão do século XIX)

Pouco se sabe da vida de Viriato: não se conhece o nome dos pais, nem tão pouco o seu ano de nascimento. Estima-se que tenha nascido por volta do ano 170 a 190 aC. Apesar de imortalizado por Brás Garcia Mascarenhas, (militar e poeta português do século XVI) na sua ode Viriato Trágico como um simples pastor, Viriato pertencia a um dos clãs aristocráticos dos Lusitanos, e não era um simples guardador de rebanhos, antes proprietário de cabeças de gado (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade). Fez-se bandoleiro, pertencente a Confrarias de Guerreiros, que saqueavam as regiões mais ricas das planícies do Sul. Nesta vida andava Viriato, quando o pretor romano Galba, furioso pelas derrotas que os lusitanos haviam imposto às legiões romanas (...) fingiu (...) sinceros desejos de paz, oferecendo-lhes férteis campos da Betica (actual Andaluzia) (...) muito superiores aos ásperos montes em que viviam. (...) Eles o julgaram sincero e em grande número se apresentaram desarmados nos lugares que haviam sido designados para concluir a proposta da convenção. Porém o traidor Galba, cercando-os com as legiões que tinha ocultas, os fez barbaramente acometer a assassinar (Archivo Popular, nº 20 de 12 de Agosto de 1836). Mais de 9.000 lusitanos foram mortos,  20.000 escravizados e enviados para a Gália e apenas cerca de 1.000 lusitanos sobreviveram. Entre eles encontrava-se Viriato. Conhecedor das técnicas de batalha dos romanos, dos anos de guerrilhas que com eles tinha travado, reuniu os sobreviventes do massacre, e começou por introduzir nos lusitanos a ordem e a disciplina, formando um exército. 
Conquistando progressivamente zonas como Segóbriga, Mancha e a Bética, tornou-se uma preocupação para os Romanos a partir de 143 a.C. Um dos combates mais importantes que travou contra as forças romanas foi o de Erisane (situada no sul da Andaluzia) onde em 141 aC. conseguiu fazer um cerco ao exército romano liderado por Fábio Máximo Serviliano. Este confronto foi decisivo por marcar o fim da resistência armada oposta a Roma, tendo Viriato obrigado Roma a um acordo com o Senado romano, onde os Lusitanos viam a sua independência reconhecida, passando Viriato a possuir o estatuto de amigo do povo romanoO seu casamento com a única filha de Astolpas, um grande proprietário da Bética, por quem se apaixonou, demonstra bem o carácter simples e despojado de Viriato. Apareceu vestido de guerreiro com a sua lança na mão, e durante o banquete recusou os manjares que lhe ofereceram. Não se banhou e não ocupou o seu lugar à mesa, criticando a ostentação do sogro. Embora a mesa estivesse repleta de manjares requintados e de todo o tipo de comidas, apenas tirou pão e carne e repartiu-os entre aqueles que tinham viajado com ele. Depois tirou alguma comida para si e ordenou-lhes que fossem buscar a noiva (Mauricio Pastor Munoz, in Viriato: A luta pela liberdade).

Estrabão definiu a Lusitânia de Viriato como a mais poderosa das nações da Península Ibérica, a que, entre todas, por mais tempo deteve as armas romanas. Viriato conseguiu não apenas a unificação  dos diferentes clãs lusitanos mas também comandar tranquilamente, sem cisões internas, durante oito a dez anos. Diodoro da Sicília, historiador e filósofo grego do século I a.C, afirmou que enquanto ele comandava, ele foi mais amado do que alguma vez alguém foi antes dele. 
No entanto Roma não esqueceu o vexame que tinha sofrido às mãos de uns quantos bárbaros lusitanos, pelo que anula o tratado firmado e declara novamente guerra à Lusitânia. Roma envia novo general, de nome Servílio Cipião, para reiniciar os combates. Viriato, com a maior parte do seu exército já desmobilizado e com poucos meios de defesa, vê-se obrigado a recorrer a um novo tratado de paz. Envia três guerreiros de sua confiança, de nomes Audas, Ditalco e Minuros, para negociarem o acordo. Cipião recorre ao suborno dos companheiros de Viriato, que em troca de dinheiro e terras, assassinaram o seu chefe enquanto dormia.  Viriato perdeu a vida e os lusitanos perderam o seu grande líder e o seu sonho de liberdade. Roma, a super potência da época, que se intitulava arauto da civilização, venceu de forma inglória e apenas recorrendo à traição. Depois da morte de Viriato,  Roma rapidamente os subjugou ao seu poder e a Lusitânia de Viriato curvou-se ao domínio do império Romano. Viriato tornou-se um herói, imagem de liberdade e de respeito pela diferença. Líder justo, de simples costumes, de personalidade forte e carismática, corajoso e defensor da liberdade foi cantado e homenageado durante séculos. Chegaram até nós vários poemas que a ele se referem, como este de Brás Garcia de Mascarenhas:

Canto um Pastor, amores, e armas canto,
Canto o raio do monte, e da campanha,
Terror da Itália, e do mundo espanto,
Glória de Portugal, honra de Espanha:
Triunfante da Águia, que triunfando tanto,
Tanto a seus raios tímida se acanha,
Que à traição, só dormindo, o viu rendido,
Porque desperto nunca foi vencido.

Também Luís de Camõeso homenageou nos Lusíadas:

Este que vês, pastor já foi de gado
Viriato sabemos que se chama
Destro na lança mais que no cajado
Injuriada tem de Roma a fama.

Numa época que perdeu o valor da tradição épica como estruturante da identidade dos seus povos, importa relembrar a memória e o exemplo dos principais autores da sua História. (...) Se perdemos a consciência da nossa identidade colectiva, como podemos reivindicar o que quer que seja, como podemos reescrever a nossa História, como podemos edificar o futuro? (António Manuel de Andrade Moniz  in Viriato, herói lusitano: o épico e o trágico).
Pena é que tão poucos Viriatos existam...