terça-feira, 13 de novembro de 2012

O simbolismo da gravata


Quando falamos em gravata, o nosso cérebro leva-nos rapidamente a pensar em etiqueta, formalidade, aperto, nó...De facto a gravata é visto como um acessório de vestuário, que a maioria dos homens e também algumas mulheres, usam diariamente. Uns usam-na por obrigação, por fazer parte do seu traje de trabalho, outros gostam de a usar e outros há que a detestam. Gostando ou não gostando, a gravata assumiu-se e faz parte das peças que estão guardadas no armário da roupa da maioria das pessoas. De tal forma ganhou importância que até foram desenvolvidas cruzetas especiais só para pendurar gravatas! Se é um facto que toda a gente a conhece, poucos são aqueles que sabem a sua história. Como é que um pedaço de tecido, fino, de cores diversas, sem aparente utilidade, se tornou numa peça de uso quase obrigatório? E mais do que isso, como se tornou esta tira de fabrico sintético, a ser símbolo de etiqueta e de formalidade? 

Se pesquisarmos a palavra gravata na enciclopédia ou num dicionário da língua portuguesa, não conseguimos ficar muito mais elucidados. Gravata é uma tira de tecido que se passa à volta do pescoço, geralmente sob o colarinho da camisa, e que se ata em nó ou laço à frente (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). No mínimo é estranho, que uma tira com um nó ou laço na frente tenha tido tanta popularidade, mesmo que muitas vezes obrigatória.

Mais estranho ainda é sabermos que o raio do nó da gravata, é difícil de fazer  e como se um não bastasse, existem vários tipos de nós com nomes pomposos - Windsor, meio-Windsor, Americano, o de Shelby também conhecido por nó de Pratt, que vieram complicar ainda mais a situação. Estranhamente o nó mais fácil de fazer, o chamado nó ordinário, denominado pelos franceses de petit noeud, é o menos conhecido e o menos usado. Com um nome destes é fácil de compreender porquê...ninguém que use uma tira de tecido apertada no colarinho da camisa, gosta de ter um nó com o nome de ordinário junto ao pescoço! 

No antigo Egipto, foram descobertas múmias que possuíam junto ao pescoço objectos feitos de ouro ou de cerâmica, muito semelhantes às actuais gravatas: tinham a forma de cordão que terminava num nó. Eram usados como amuletos e conhecidos pelo nome de Sangue de Ísis que tinha como função proteger os mortos dos perigos da eternidade. Também o exército chinês do Imperador Qin Shihuang, que foi o primeiro Imperador da China Unificada e que iniciou a grandiosa construção da Muralha da China, usava à volta do pescoço um tipo de cachecol com um nó como símbolo de prestígio e de status, por pertencerem à força militar do Imperador. Quando o seu túmulo foi aberto em 1974, as estátuas do famoso exército de terracota que foi construído como réplica exacta do seu exército, apresentavam todas elas panos com um nó à volta do pescoço. Também os romanos utilizavam o chamado focale que mais não era do que uma faixa de pano que os soldados romanos utilizavam para proteger o pescoço da armadura e do frio, que era feito em lã ou linho. O Imperador Trajano  mandou erigir no ano 113 dC, uma fabulosa coluna, a chamada Coluna de Trajano, onde estão representados  milhares de soldados muitos deles com o focale ao pescoço.

No entanto é aos croatas que devemos a introdução da gravata como peça de vestuário. Durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) em que estiveram envolvidas várias nações europeias por motivos religiosos, dinásticos, territoriais e comerciais, soldados croatas lutaram ao serviço da França. Após uma batalha contra o Império Habsburg, o exército francês foi recebido pelo Rei Luís XIV em Paris, e entre eles encontrava-se um regimento de soldados croatas, que usavam tiras de tecido colorido ao pescoço. Este enfeite de cor era feito de tecido rústico para os soldados e de algodão ou de seda para os oficiais, distinguindo assim as patentes militares. Por volta do ano 1635, cerca de seis mil soldados e cavaleiros vieram a Paris para dar suporte ao rei Luis XIV e ao Cardeal Richelieu. Entre eles, estava um grande número de mercenários croatas. O traje tradicional destes soldados despertou interesse por causa dos cachecóis incomuns e pitorescos enlaçados em seu pescoço. Os cachecóis eram feitos de vários tecidos, variando de material grosseiro para soldados comuns a seda e algodão para oficiais (La Grande Histoire de la Cravate, Flamarion, Paris, 1994). Os franceses encantaram-se com o colorido adereço, que denominaram de cravat que significa croata. O impacto deste pedaço de tecido foi tal que o próprio rei francês ordenou que o seu alfaiate particular produzisse uma peça semelhante à utilizada pelos croatas e a introduzisse no seu trajo real.
Em 1660 Carlos II de Inglaterra, regressou ao seu país para reclamar o trono, e com ele foram vários aristocratas ingleses que já tendo adquirido uso da cravat em França, iniciaram a moda nas ilhas britânicas.
O seu uso popularizou-se rapidamente pelos restantes países europeus e posteriormente pelo continente Americano.
Curiosamente o exército francês manteve até 1789, altura da Revolução Francesa, um regimento de elite a que chamava Cravate Royale. A palavra portuguesa gravata deriva da francesa cravate, que originalmente significa croata (cravat).

Um pedaço de tecido de origem bélica, foi transformado pelos franceses num adereço de vestuário, apenas porque acharam vistosa e apelativa uma tira colorida usada pelos soldados croatas. Bem descrito nas palavras de Nabuco de Araújo, ministro da Justiça e Senador do Império do Brasil de 1858 a 1878, está o simbolismo da gravata e a sua ligação a uma elite da sociedade: a liberdade existe para nós, homens de gravata lavada, e não para o povo. Sem nenhuma utilidade prática chegou até aos nossos dias e ainda hoje é usada por milhões de pessoas em todo o mundo. É sem dúvida uma questão que dá muito que pensar...